terça-feira, 18 de julho de 2017

Rédeas soltas


















Solto as rédeas.
Deixo  o pensamento
comandar o momento.
O importante é me entregar,
decolar desse porto sem cais,
abandonar o navio, o vazio,
caóticas e insolúveis situações.
Ir onde ele bem me levar
sem temer o que virá,
o que verei, o que será….
Roletar direções,
represar previsões
que erram a todo instante
incorrendo em tempestades
as imprevisões diárias.
Por ora viajo com meu pensamento
liberando endorfina,
combustível para meu pensar,
oxigênio para meus neurônios
sem saber onde vai dar…
Circundando a rosa dos ventos
tatuada no tempo,
em sonhos e irrealizações.
Disperso poemas,
sentimentos guardados,
chorados, calados,
inerentes aos temas
que já não estão sobre as mesas.
Um pouco acima do chão
deixo um vão...
-entre o abstrato e o concreto-
Talvez uma passagem
para algum amor secreto;
um decreto publicado em poesia
em pleno trajeto.

Voo com meu pensamento
até onde possa voar…
Com ele tenho alento,
paciência pra me adaptar.
E volto “resiliência,”
apta a continuar.

Carmen Lúcia





quarta-feira, 28 de junho de 2017

Liberdade























Mostrei o que sou.
O que realmente modula em mim;
fui contra as marés,
emergi de um abismo sem fim.
Cruzei linhas paralelas,
 corri na contramão do vento, do tempo 
e me alcancei na última estação...
 
Rasguei minha carne, expus meu avesso,
o meu contexto
e toda a sensibilidade verbal,emocional,
escondida em contra senso,
sufocando o bem, endeusando o mal.
 
Postei nua minha identidade
e toda a verdade antissocial ...
chocando a realidade dura.
Vomitei iniquidades cruas
ingeridas por razão irracional
sob forte pressão radical.
 
Viajo sem malas.
Sem revolta ou bilhete de volta.
Sinto-me leve, nada que me pese,
sem alças das parafernálias
que pendurei num tempo que já teve fim.
 
Sigo só... melhor assim.
Insana, estranha, profana
é o que pensam e podem pensar de mim.
 
 
(Carmen Lúcia)

Quinta fase da lua





























O tempo escorre…
E a vida devagar tolhe
devaneios parcos,  poucos,
sonhos enroscados,
perdidos, afoitos,
famintos de querer  ficar.
Ocultos em oposição ao vento
pedem por socorro
e não os carregar,
clamam abraços de um poeta louco
ao não  se dar conta
 que o tempo é pouco
pra investir tanta emoção
e se emaranha nesse espaço roto,
por contradição,
nessa trajetória breve
que descreve
um caminho torto
onde o espinho arde
e a flor já não mais dá.
Mas se o motivo é arte
há que se cumprir a sina
da poesia que invade…
Ainda que o sol se (o)ponha
e na última esquina
de qualquer rua
aponte nua
em inusitada quinta fase,
a lua.

Carmen Lúcia



terça-feira, 13 de junho de 2017

Respostas sem perguntas















Reveste-se de pátina o cenário.
Personagens reais ou imaginários,
envelhecidos,
tribais.
Não pela ação do tempo.
 Por ali ele nem passa.
 Ultrapassa.
Assim como a ação da luz.
Descompassa,
 não seduz.

Quem são?
De onde vêm?  
Paridos de qual solidão?
O que não têm?
O que veda o sofrimento
 frente a tal confinamento?
No gueto,
o unguento a entorpecer feridas,
prisão cercada de fumaça e pó,
desamor a representar sem dó
 atos desencadeando  nãos  à vida.

E a sociedade, cheia de respostas,
de ideias e intervenções,
ações supostas,
olhos turvos de ramela,
olhar que reprime, atrela,
 lança a novas reclusões
sem a profundidade
precisa de um olhar,
onde se é juiz e promotor.
Sem réu.
Onde jaz todo valor
sem julgar a dor.

Arrogância, hipocrisia,
intolerância à revelia,
antropologia imoral,
um faz de conta geral
do rumo certo tomado  
e o certo ou errado
já se tornaram utopia.
Vultos sem rostos,
 vivos-mortos,
filhos da urbanização patológica.
 Não perguntam,  querem não ser.
Inibem a cara pro sol, tentam se esconder.
Lançar mão da droga para não doer
a dor que dói mais que se drogar…

São parte da sociedade,
não excluídos da Constituição,
prescritos na bíblia sagrada,
 sagrados em comunhão
ou o Cristo da revolta,
 “Atire a primeira pedra…”
não mais se revolta?
 Morreu?

A Cracolândia existe.
É o avesso do mundo.
Seu  lado contrário e imundo.
A realidade triste
que persiste em desdizer
o que sabemos
sobre condição humana.


 Carmen Lúcia





domingo, 23 de abril de 2017

A poesia espera


























A poesia espera
a flor nascer  no jardim,
o beija- flor voltear
a rosa vestindo carmim,
num beijo doce selar
o amor que não tem fim.

A poesia espera
o beijo frio da estrela,
o último pôr do sol,
a próxima lua cheia,
o  eclipse total,
a aurora boreal,
e toda a beleza celeste…

A poesia espera
a distância encurtar,
o encontro acontecer,
a aproximação vincular
almas que se buscam,
se amam, se ofuscam,
andarilhas na multidão
sem ter onde ancorar.

A poesia espera
o momento lento,
 o silêncio bento
de palavras caladas
e incalculáveis significados,
instantes eternizados,
sentimentos tantos,santos,
raridades, verdades…

A poesia espera
o rio transbordar, enfim,
e alagar toda tristeza
curando desastrosa crueza
a afluir num mar sem fim…

A poesia espera
o arrojo do arrependimento,
a delicadeza do perdão,
 o ápice do arrebatamento
enquanto o poeta dá vazão
a um turbilhão de sentimentos.


Carmen Lúcia


quinta-feira, 6 de abril de 2017

Contra versões




















Em qual versão me perdi? 
Foram tantas que vivi,
 expostas e inconvincentes.
Talvez em todas ou nenhuma.
Ou quem sabe
na tradução que imaginara
ser tal qual o meu perfil.
Porém ele se modificara
de acordo com os traslados dos dias
a interferirem  na alma
seguindo a revolução decorrente dos fatos
que lacram, decepam, descartam…
buscando entre boatos e mentiras
uma verdade sincera
a qual me propusera
julgando ser o caminho ideal.
Quimeras…
Foram tantas as versões…
Verdades se multiplicaram,
confundiram minhas (re)ações.
Insensatez…
Volto ao ponto inicial
e recomeço outra vez.


Carmen Lúcia



sexta-feira, 31 de março de 2017

Tempo da sabedoria


























Era, de todos os tempos,
o melhor …
Tempo em que se atirava
a impulsos tresloucados
sem medir o que viria
 da insensatez  de nada medir.
Em que a inconsequência era fato,
não impedia a ousadia do ato
de se fazer o que bem se quis.
Era um ser feliz por um instante,
ou por uma eternidade…
Era um se entregar constante
 por caminhos da liberdade,
a sede de beber felicidade
 sem o certo ou errado, nenhuma falsidade.
Dar o pulo do gato, desvendar o segredo
ainda que se quebrasse a cara
ficando de cara com a tristeza
a servir de consolo
ou  lição para a evolução.

Era tudo ao mesmo tempo,
eclosão de sensações,
explosão de sentimentos
em que não se ponderava…
Pior não ter feito nada
e se arrependido
depois do tempo perdido.

Era um tempo em que se vivia.
 Era o tempo da sabedoria.


Carmen Lúcia


quarta-feira, 29 de março de 2017

Dias conturbados



















Nesse tempo de rapidez tamanha,
de não mais saber onde mora o longe,
da tecnologia que nosso ar respira
e o pensar expira, pois a tudo ela responde,
da compulsão de olhar para uma tela fria
causando estragos, mentes doentias,
largando um mundo inteiro para lá,
juntando distâncias que se percorria
com a emoção de se querer chegar,
de se encontrar, trocar carinhos, 
sentindo o toque real  de tal magia…

Perco-me em pensamentos
num vaivém de dias desencontrados.
O ano quase se foi,
os meses não querem ficar,
os dias apressados
estão todos agendados.
O amanhã já é ontem,
o ontem virou saudade,
o hoje está cansado,
 chegou bem atrasado.

Despeço-me dos ricos detalhes.
Merecem pausa  para os apreciar.
Despeço-me da fantasia,
o tempo é curto pra se divagar…
A noite  vem chegando,
o dia vai raiar…
Não dá mais  para sonhar.


Carmen Lúcia




terça-feira, 28 de março de 2017

Os olhos de Carmen!




















Poema de Mauro Veras


.
Na foto, dois olhos, duas portas abertas
e a sede de conquistas que impulsiona navegadores:
o coração sempre a bater destemido!
o trem que apita sem dizer o destino!

Carmen, carmina, carme ... se acalme, poeta!
a jovem musa tem a essência das flores,
mas tem a força e o calor do sol a pino
sobre a areia fina de uma praia deserta.

Seus olhos denunciam o arrebatamento das paixões,
das paixões que movem legiões de soldados,
que têm o destemor dos riscos e do perigo
mas que também é suave como a muda do trigo!

Carmen Lúcia, a poetisa densa e amorosa
dona de uma poesia fina e arriscada, como as rosas ...
onde, envergonhado, um pequeno espinho se amiúda e some ...

Carmen Lúcia ... o que mais esperar da mulher
que traz a poesia e a luz no próprio nome?


Obs.: Poema realizado durante a cerimônia de minha posse na Academia Virtual Navegantes das Estrelas, em 01/11/2006, e dedicado à poetisa Carmen Lúcia.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Protagonizando o outono





















Vivo o outono.
Não só a estação do tempo,
também a que trago aqui dentro,
outorgando tristonha
o cair  de folhas secas
e sua entrega ao vento.

No ar, galopa a polinização,
sem posição, sem direção, sem reta,
 um redemoinho de grãos
buscando lugar para procriar…
Em mim, rebelião de células
que desocupam lugar e secam,
causando  tristeza,  transtorno
 embolando-se com o outono.

Mistura de cheiros em ebulição,
Infusão a machucar o pulmão
dificultando o respirar,
provocando inquietação,
o desconforto de não saber explicar
o que não tem explicação.

Vivo o protagonismo da estação.
Sou folha que cai e se rende ao vento,
a fragilidade do amor que se vai
e se abriga ao relento.
A árvore desnuda
sem sequer uma muda
pra lhe agasalhar.

Temporariamente sou  outono.
Infinitamente continuo outono.
Tom tristonho, cores irreais,
folha amarelada em abandono
de papel ou de outono,
à espera de uma história imortal.

Carmen Lúcia




sábado, 25 de março de 2017

A magia do pensamento




















Voa, pensamento, voa…
Veja a primavera em Berlim!
As folhas por aqui morrem,
flores estão sem jardim,
dormem, tristonhos, os beija-flores,
borboletas procuram suas cores.

Voa, pensamento, voa,
cruza as terras do além-mar,
abraça Lisboa, Tomar,
Cascais e suas conchinhas,
beija Luizas a faiscar
poemas e telas sem planos
naifgando  Pessoas, Fridas,
Caetanos.

Permeia ruas em Paris,
segue a rota que bem lhe condiz
cega-se ao brilho da luz,
faz o que ainda não fiz,
embroma-se nas lavandas,
embriaga-se de perfume
e voa seguindo seu lume.

Voa sobre oceanos
envoltos de brumas ao amanhecer,
espera a lua acordar,
o sol desaparecer
e banhe-se ao luar.


Volta quando tudo mudar.
Aqui está como antes,
sem flores, sem cores,  sem atenuantes…
Volta quando a primavera voltar.
De cada canto me traga um encanto.
Semeia-me da essência de cada lugar.
Voa, pensamento, no etéreo de sua magia
Você pode voar…


Carmen Lúcia



quinta-feira, 23 de março de 2017

Foste com o outono






















Foste com o outono
como folha silenciosa
sem aviso, de improviso
sem despedida sequer…
 Foste a folha escolhida
pela árvore da vida
e nova missão requer.
Na quietude de tua alma,
na plenitude do amor sem condição,
no ápice do sonho e realização
flutuaste lenta e tristonha,
remanso a adormecer na imensidão.

Sabias que um dia entenderíamos
e ganharíamos de novo o chão.
Deixaste o que tinhas em mão
a penetrar  nossos sentidos,
a violar alma e coração…
Tua essência, teu perfume, teu sorriso
tua emoção…
Teu colorido indescritível
lançando nuances ao tempo
não roubará nenhuma estação.
Renascerás a flor mais bela
em cada primavera
de todas as eras,
e eras …e eras.


Carmen Lúcia


sexta-feira, 3 de março de 2017

Pichação



















Picho o mural do céu
entre nuvens vagando ao léu
onde é concebível o expressar sincero,
riscar em todas as línguas
a alma em flagelo,
o desengano,
a revolta de cada ano, do tempo,
do cotidiano…
Aumento o som do vento
a carregar pelo mundo
os contratempos, os impropérios.
Que os carregue
para o quinto dos infernos.
Picho de preto nuvens carregadas
de lágrimas evaporadas, salgadas,
a desaguar toda amargura
no oceano que circula
nesse leva e traz da vida.
Picho a morte, a despedida
sem passaporte de volta,
a revolta
em muros já pichados na imensidão.
Picho com emoção,
(lei que rege o coração)
em nuvens de algodão,
a estranheza da leveza
com que exerço a pichação,
tendo na poesia a direção,
a verdade e a impunidade.
Picho a propriedade alheia que se esgueira
e o vazio do espaço a levantar fronteira.
Picho a “fábrica de deboches”,
o escárnio a conduzir fantoches
que já não são como antes.
Há cérebros pensantes.
Grafo nas entrelinhas do horizonte
a vida que segue, o amor que se esconde,
e no íntimo de meu ser
grafo a arte, baluarte do saber viver.

Carmen Lúcia



quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Evidências















As evidências estão por toda parte,
sufocam o ar, penetram a solidez
de consistências impenetráveis.
Impõem a presença do ausente,
intensificam a dor que se sente.
Instalam-se, invulneráveis, na insensatez
de um coração que arde sem reagir,
na estupidez de uma razão covarde,
ilógica, permitindo tamanha invasão...
a devastação total de um ser
que escancarou a porta ao incontestável,
e sem clemência deixou suas marcas
entranhadas, delineadas, gravadas
na vida que tento viver,
no pranto que tento reter,
no riso que já não é meu,
na poesia que tanto doeu
e se alimenta de tudo que é seu,
alienada às evidências fincadas
num  amor que já morreu.
 
 
_Carmen Lúcia_


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Transformação
























Retira o cinza da vida,
pinta-a com a leveza das cores
suaves, amáveis, amenas,
penetráveis à alma, apenas,
à espera do facho de luz
que conduz,  estimula à calma,
 induz ao encontro da paz.
Enxuga o pranto salgado
molhando o rosto cansado,
mostra que sabes sorrir.
Inventa motivos…  Eles hão de vir
enterrar os já saturados,
 os novos serão festejados
com bailados, flores e cores
em qualquer jardim.
Faz isso por ti, por nós, por mim.
Dança com o pôr do sol,
vibra a estrela cadente
riscando teu âmago ardente…
 lixa a aspereza do corpo,
mergulha-o em águas fluentes
onde haja rosas, ninfas e duendes.
Desequilibra o lúcido, o insano.
Pende  para a loucura, por instantes,
intervalo para a inspiração,
suporte para a transformação.


Carmen Lúcia





quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Despedida


















Agora que eu era quase feliz
é para me despedir do tempo,
entrar no epílogo de minha história,
ir calando as emoções sonoras,
guardar o sentimento que chora
e disfarçadamente pingar um ponto final,
até finalmente calar.
Abraçar uma nova velha fase
e com ela me descaminhar…
Guardar o que couber na memória
e o que sobrar deixar para nova história,
quem sabe do mesmo contexto
em que minha vida ora vigora.
Hoje o tempo me faz ir devagar,
o meu coração corre a divagar
e me espera onde não posso chegar,
onde os acordos eximem prioridades,
onde a fantasia se veste de verdade.
Os desacontecimentos florescem
 num tempo que já não me quer.
O mesmo que me ensinou a amar,
a viver sem percebê-lo passar,
(foi tanto o que deixei escapar)
a cada dia em novo cais aportar.
Há um pedaço da alma em cada lugar.
Agora que me agarrei ao tempo
tenho que me desagarrar.
Deixá-lo ir, partir…
E eu (de)vagar,
ficar.

Carmen Lúcia



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Ausência




























Ela dançava, ela sorria,
ela esbanjava sua alegria.
Ela nascia, ela morria
e renascia co’a flor do dia…
Ela vertente, ela nascente,
leito e percurso da poesia.
Corria mundos… Não poderia
não fosse o dom da inspiração.
Varava sóis, cobria luas
nas fases frias de noites nuas.
Ela esboçava e coloria
os muros cegos de seus quintais…
Trancava dores,  calava ais,
abria frestas para os amores.
Juntava cacos da euforia
e enfeitava os festivais.
Vagava versos em sintonia
com o trem das cores
nas estações.
Ela fazia e acontecia
sem demarcar as emoções.
Ela nascia, ela morria…
Hoje ela jaz.
Não nasce mais.


Carmen Lúcia

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Êxtase























Não, não era pra ser…
Tão perfeito  era,
teve que quebrar,
ou deixar ao vento
pra entregar ao tempo,
que a seu contento
tudo vem buscar.

Não, não seria eterno,
nada é para sempre
tende a mudar,
tudo o que foi terno
vai se transformar
e deixar seu rastro
perfumando o ar
 suavizando a pele
querendo ficar.

 A doce lembrança
ninguém roubará,
vai virar fragrância
embrenhada ao ar…
Difícil extirpar
o que se inspira
para respirar,
e retorna pra ficar.

Não, sei que vai morrer
junto com o sol
do entardecer…
Mas enquanto dure
quero que perdure
mais um dia só…
Feito girassol
iremos girar
entre  cores belas
em pleno arrebol.



 (Carmen Lúcia)

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Lado racional



















    
  Meu lado racional é um tanto anormal.
Priva-me das melhores sensações,
 diz que é pra me ver feliz.
Prende-me  se quero ir,
tolhe lembranças de minha raiz,
sufoca minhas emoções
que eu escondo ao engolir,
lança-me  ao que quero fugir,
dopa o sonho que anseio sonhar,
corta-me as asas se as ameaço alçar.

Esse meu lado racional me consome
alheio ao que alimenta  minh’alma,
ao que sacia minha fome,
à paz a me trazer a calma.
Impõe regras, preceitos, conceitos,
coíbe meu modo de ser, de não ser,
de sofrer, espairecer, viver…
Inibe minha vontade, minha identidade,
minha verdade, minha autenticidade.
Nem sabe das cores, das flores, dos olores
que cirandam à minha volta
e me elevam ao mundo que fomento
 onde voa livre meu pensamento
ao encontro das mais fortes emoções.

Ainda que em linhas retas trace minha rota
(esse meu lado (ir)racional),
o coração a razão derrota.

Carmen Lúcia


domingo, 15 de janeiro de 2017

Apenas um sonho























Era um sonho inatingível,
fora da realidade,
das possibilidades
de quem só sabe sonhar.
Trancado a sete chaves
num cofre no fundo do mar,
um mundo à parte
imergindo dons de voar,
desses que ninguém invade
sem estar apto para tanto,
guarnecido de encantos,
 de sentimentos tantos
nascidos do âmago pra se soltar
e chorar pelo que não pôde,
pelo que não coube
e teve que calar
tal a vastidão de seu penar.

Era um sonho inatingível,
praticamente impossível
de se realizar.
 Virar poeta da noite pro dia,
 perseguir a utopia
que não se deixa tocar.
Se tocada perde a magia
e o sonho vem a desabar…

 Inatingível.
Mas era um sonho,
não podia esmorecer,
cair em  abandono,
desvanecer
sem ter visto o sol
do alvorecer,
beijado a nostalgia
do entardecer
sentido a primavera nascer…
Não podia morrer,
deixar o poeta
de mãos vazias, atadas
e a alma repleta de poesia,
mutilada.

Inatingível.
Mas não impossível.
Bastaria acordar e buscar.



(Carmen Lúcia)