sexta-feira, 4 de maio de 2018

(In)lucidez





















Prefiro o desequilíbrio lúcido
a revirar sentimentos calados
fazendo barulho pra manter-me viva,
a seguir outro compasso
na contradança da vida
que contraria e impede a valsa.

Prefiro perder-me de vista
e reencontrar-me nova
onde se entremeia a pista
que a todo instante se renova
no “salve-se quem puder”
e salvarem-se todos,
entre mortos e feridos.

Prefiro atalhos cerzidos,
remendados um a um,
à reconstrução de caminhos
que não levam a caminho algum.

Entrego-me ao inesperado,
ao sonho inusitado,
às contradições do dia,
à luz de cada manhã,
à espera compulsória, ilusória,
alienada ao mistério não revelado
da incerteza do amanhã.

Prefiro-me a mim,
como sou, assim,
(in)lucidez que vibra
a cada lampejo do sol,
co’as  miudezas da rua,
co’as voltas do girassol,
com a nova fase da lua.


Carmen Lúcia





















sexta-feira, 27 de abril de 2018

Utopia



























Não há chão para meus pés.
As escolhas foram em vão.
Banho-me em igarapés
 cercados de ilhas, isentos de vãos.
Sem a correnteza do rio
ou o renovar de cada instante
de todo dia que vem desfilar.
Quando eu for embora
sei que irei vazia,
meu coração aqui irá ficar.
E minh’alma dançará
pelos cantos das esquinas
com minha fantasia
e aquela música que tocará.
Perdi-me em versos, em pobres rimas
buscando poetisar o brilho do universo.
In versos, fiquei por lá.
Ninguém sequer me via, me lia
ou compreendia minha poesia.
Fala-se em ódio, polarização.
Entre os seres, a desunião.
Falas que não competem ao poeta,
atitudes inversas a sua religião.
Jogo a toalha no chão.
Talvez me vá para sempre
ou volte algum dia.
Tentar abraçar a utopia.


Carmen Lúcia

terça-feira, 24 de abril de 2018

Ânsia de viver

















Quis viver o amanhã, hoje.
Ter tudo de uma vez, agora.
Corrida insana. Desejo aflora.
Num instante obter o que degola.
Deixa o que há de mais caro,
as raízes , a identidade,
o amor tão raro.
Olha por cima, maldiz o agouro.
Era o arrimo, o remo, o rumo…
Não mais seria o velho prumo.
E foi, pisando a dor, o abandono,
a terra de pranto molhada,
a essência de si, ceifada.

Cegou-lhe o brilho falso da vida,
o cansaço de noites mal dormidas.
De palco em palco absorveu aplausos.
Sentiu-se rei. Foi sua própria lei.
Não contou com os bastidores,
as histórias  verdadeiras,
risos parcos, dores embusteiras.
Sucesso é armadilha sorrateira.

Precisou voltar.
Algo o impelia, o conduzia.
Talvez aquela voz da consciência
que quebra o gelo, a resistência…
Postou-se diante da morte,
 (realidade até então nunca vivida),
chorou o pranto verdadeiro,
acenou o adeus  derradeiro
e combalido, olhar a esmo,
sentiu que jamais seria o mesmo.


Carmen Lúcia






sábado, 21 de abril de 2018

Frias grafias



















Escrevo…
Mas letras são símbolos.
Não tremem o que sinto.
Não ouvem gemidos.
Registram emoções, apenas.
Descrevem sensações, à pena.
Mentem, não confrontam olhares
condizentes, convincentes.
São paus mandados, impressões
que não se impressionam jamais.

Grafam as  dores com sinais
metafóricos, irreais…
Escrevem expressões
frias, caladas, impessoais…
Ah, se pudessem falar…
Se retratassem emoções,
saíssem do papel
em busca de direções
e materializassem
seus registros,
suas marcas,
seus sinais…

Basta de insanidade!
Isso é querer demais.


Carmen Lúcia

Lembranças vivas























Eucaliptos rodeiam estradas de chão,
florinhas colorem beirais e caminhos,
maritacas acordam outros passarinhos,
olores campestres perfumam o rincão.
Ranger de rodas, charretes, carroças,
saudosa lembrança, tempo que se foi,
sorriso no rosto corado,
menina e seu carro de boi alado.
No morro o gado, o rastelo, o arado...
Vaquinhas leiteiras, mato capinado,
sem cercas de arame, ao som de riacho,
cascatas bailando montanhas abaixo.
Os ultravioleta do sol das manhãs,
o fogão à lenha, as chaminés,
o doce de pera, de cidra e maçã,
bolo de fubá, broinhas e café.
Ao pé da colina uma capelinha,
a cruz trabalhada, telhado grená,
a Ave- Maria, silêncio e harmonia
e a romaria do povo a rezar.
Varanda da casa, fiel namoradeira,
segredos guardados da vida inteira,
samambaias, avencas,
vasos dependurados,
o som do berrante tristonho da tarde,
gado em marcha atendendo ao chamado.

_Carmen Lúcia_

(idos de 2007)

segunda-feira, 19 de março de 2018

A gente espera






















A gente espera...

de novo o dia raiar,
 a noite chegar,
 o galo de novo cantar
mais uma vez…e outra.
Reforma no “quartel de Abrantes”.
 Tudo está como era antes.

A gente espera…

Um dia… Não tem hora.
Não carece ser agora.
(Com cautela, não atrela.)
O cessar da bala perdida
que certeira, levou uma vida.
Mais uma…e tantas…
A dor escrever outra história.
A dela, a sua, a nossa agora.
Guardada só na memória
dos que a tem.
Aí entra o coração…
Reconstruí-lo? Quem?
A gente espera
o rufar dos tambores,
 o fim dos clamores
o tempo de paz…
A justiça di-vagar
 sobre injustiças sociais,
intolerância, preconceito,
a hipocrisia virar preceito,
as emendas (in)constitucionais.
(em sigilo que se faz)

A gente espera

o tempo passar,
 o crime continuar perfeito,
o bandido nunca ser suspeito,
num mundo desigual
onde ser de mentira é normal.


A gente espera, se cansa,
recua, avança…
E cumpre o destino
 de sempre esperar.
(Até o mundo acabar.)




Carmen Lúcia



sábado, 17 de março de 2018

Essências




















Estão sempre ao meu lado
seja de que lado for,
sopram meu pranto calado,
compram minha dor.
Partilham a alegria,
exultam o amor.
Levam meu sorriso brando
 a irromper em gargalhada
brotando um mar de lágrimas,
doces gotas bem dosadas.
Movem-se (e me removem)
pra lá e pra cá,
num jeito leve de se levar.
Amenizam caminhos.
São portos, são ninhos
pra quem chegar, se abrigar.
Quero-os sempre comigo.
São anjos!
São poucos, são tantos!
Tesouros de imensa valia,
simples riqueza singular.
Chamam-nos essências,
ou também  amigos!


Carmen Lúcia

quinta-feira, 15 de março de 2018

Desabafo


















Senhor,
em teus pés derramo as dores
e o livre arbítrio em tuas mãos.
São dores varadas por vãos
de pregos cravados, lacrados,
teares da reles fiação
movidos a rancores
da livre submissão,
liberdade sem permissão.
altares de vis significados, 
 puros cânticos de manipulação,
violação dos santos quereres,
 ultraje aos  justos poderes.

De um lado, a fragilidade, o ensejo.
Do outro, o insano desejo…
O caminho ladeado de flores
Incrustado de espinhos
sangrando amores.

Senhor,
dá-me outra direção
ou a tua perfeição…
Essa minha imperfeição
me coíbe crer
que a vida vale a pena
ou que um dia vou morrer.

Por esse meu desabafo
gerado de meu coração
ajoelho-me humildemente
e te peço perdão.

Carmen Lúcia