domingo, 1 de julho de 2018

Sem opção

















Faz a bagagem.
Para o próximo voo,
serão suas asas, a experiência.
A que a ensinou voar
com lucidez e (cons)ciência
quando a inlucidez reinar,
 as portas se fecharem
e o desafio entrar.
Ao ficar cara a cara com a vida
sem opção de recuar.
Quando o medo que se sente
e arrepia o ventre
deixa de amedrontar.
Jaz em qualquer lugar.
Agora é encarar.
Se as pernas tremulam
e os pés sangram pedras
lança-se mão do que há,
do que nunca será em vão,
do que eleva e tira o chão
e se perpetua feito espada
na luta contra a disparidade e desunião.
Foram anos de aprendizado.
Voos rasantes, minguados,
até alcançar o sol.

Encara de frente o desafio…
Nem noite escura, nem solidão, nem frio.
Nada que a acovarde a prosseguir,
andar pelo caminho que escolheu,
devolver-lhe a liberdade que perdeu,
 seguir de cabeça erguida
com a leve sensação de que venceu.



Carmen Lúcia





terça-feira, 26 de junho de 2018

Saindo dos trilhos


















Sou humana, sou fulana, sou senhora,
com direito a deslizes e imperfeições.
Meu relógio só enfeita, não tem hora,
vivo o hoje, cada dia, o agora.
O amanhã é imprevisão
e o tempo não se demora.
Você que reclama,
me enxerga e não me vê,
não sabe que tem ainda
 muito a me conhecer...
Jogue-se, sem medo, ao prazer,
faça o melhor acontecer.
Se fez errado, vai se benzer…
A prece perdoa o pecado,
mas do tempo perdido
vai se arrepender.



Errei por incontáveis vezes,
consciente,  sem pedir perdão,
 e com muita valentia
usei o coração
enquanto a razão dava vazão
ao julgamento da sociedade
 coberta de precariedade,
ao corretamente político,
enfático, enfadonho, pragmático,
avaliando a inconsequência
de um desequilíbrio fugaz,
 do brilho intenso dos olhos,
encontro de mim com a paz,
feliz ao me descarrilar dos trilhos,
ver o mundo passar sem olhar para trás
e viver intensamente 
uma vez mais.

Errei…mas acertei
e errarei ainda mais.

Carmen Lúcia



domingo, 17 de junho de 2018

Vida cor-de-rosa

















Abre-se o cenário.
Real ou imaginário?
Tons de rosa ondulam,
modulam uma passarela.
Tal visão arrebata-me o chão.
Alço voo, sem macular o imaculável,
o tapete mágico a revelar
não só a vida cor-de-rosa,
como o tema de mais uma ilusão.
Aterriso e me arrisco a acordar.
Pé ante pé perpasso tanta beleza
e me despojo do cansaço.
O perfume rosa me refaz.
Danço. Espatifo flores.
O vento nos faz girar.
Sinto-me parte dessa arte.
Sou dança.Emoção que arde.
Ninguém é capaz de esboçar.
Não há dom que retrate esse tom.
Turva-me a mente. Novamente, o vento.
Carrega esse momento
e cada esperança se lança ao chão.

Carmen Lúcia






terça-feira, 12 de junho de 2018

Para Luiza Caetano




















Quis tanger o mundo,
abraçar o universo,
ser raio de sol,
acalentar o reverso,
nascer com o arrebol,
rescender-se à beleza,
morrer com o pôr do sol,
erradicar a tristeza,
renascer a cada dia,
ser verso sem rima, poesia,
pincelar muros caiados
com toques de alegria,
rebuscar em pátina os espaços,
juntá-los, reduzir os passos,
cruzar as paralelas,
plantar amizade entre elas,
espalhar cheirinhos de alecrim,
embeber a todos…e a mim.

Transcendeu fronteiras, eiras e beiras,
uniu mares, terras e lares,
realizou seus intentos,
semeou suas paixôes.
Em barcos com Fridas e Pessoas
navega talento que ainda ressoa...
Quebrou cercas do intransponível,
no infinito ora vive.

Pelas janelas do céu posso vê-la.
Agora é estrela.


Carmen Lúcia

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Entregas





















Entrego-me ao crepúsculo das horas,
ao tempo que não se demora,
ao sonho impalpável
irrompido da  aurora
onde minhas mãos resvalam,
tremem, teimam, demoram
pelo cansaço da persistência.
Entrego-me ao intransitável,
às lonjuras sem demarcação
a transitar minha existência,
minha solidão.

 Às veredas purpurizadas,
aos canteiros de jasmins,
às belezas não sondadas
que não vejo, mas existem sim,
aos sonhos interditados
sem avisos nem porquês,
ao desejo de ir, apesar de…
À  sensação que vai passar
e permanece, sem trégua,
em mim.

 Aos mistérios a rondar,
ao ter que crer sem ver
e ninguém pra revelar.
Ao definitivo do não eterno,
à certeza de haver um fim,
às perguntas sem respostas:
Pra onde vou? De onde vim?
 Meu silêncio a gritar
e ninguém a me ouvir.






Carmen Lúcia





sexta-feira, 4 de maio de 2018

(In)lucidez





















Prefiro o desequilíbrio lúcido
a revirar sentimentos calados
fazendo barulho pra manter-me viva,
a seguir outro compasso
na contradança da vida
que contraria e impede a valsa.

Prefiro perder-me de vista
e reencontrar-me nova
onde se entremeia a pista
que a todo instante se renova
no “salve-se quem puder”
e salvarem-se todos,
entre mortos e feridos.

Prefiro atalhos cerzidos,
remendados um a um,
à reconstrução de caminhos
que não levam a caminho algum.

Entrego-me ao inesperado,
ao sonho inusitado,
às contradições do dia,
à luz de cada manhã,
à espera compulsória, ilusória,
alienada ao mistério não revelado
da incerteza do amanhã.

Prefiro-me a mim,
como sou, assim,
(in)lucidez que vibra
a cada lampejo do sol,
co’as  miudezas da rua,
co’as voltas do girassol,
com a nova fase da lua.


Carmen Lúcia





















sexta-feira, 27 de abril de 2018

Utopia



























Não há chão para meus pés.
As escolhas foram em vão.
Banho-me em igarapés
 cercados de ilhas, isentos de vãos.
Sem a correnteza do rio
ou o renovar de cada instante
de todo dia que vem desfilar.
Quando eu for embora
sei que irei vazia,
meu coração aqui irá ficar.
E minh’alma dançará
pelos cantos das esquinas
com minha fantasia
e aquela música que tocará.
Perdi-me em versos, em pobres rimas
buscando poetisar o brilho do universo.
In versos, fiquei por lá.
Ninguém sequer me via, me lia
ou compreendia minha poesia.
Fala-se em ódio, polarização.
Entre os seres, a desunião.
Falas que não competem ao poeta,
atitudes inversas a sua religião.
Jogo a toalha no chão.
Talvez me vá para sempre
ou volte algum dia.
Tentar abraçar a utopia.


Carmen Lúcia