segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Vem, Primavera!
























Vem, Primavera,
deixa tua marca sobre a terra,
tanta beleza embevece
e enquanto passas, entorpeces
 sentimentos prestes a morrer.

Vem, Primavera,
não desapontes quem te espera,
teu aroma chega nas vésperas,
tua essência reverbera,
tuas cores vêm depois...
Encobre o frio do inverno
congelando corações.

Lamento o chão inundado
de lágrimas roladas, pranto salgado,
o  ar impuro,
 fumaça suja de quem o exala.
O mar de lama infindo
onde nosso barco vem caindo.

Tanta primavera assim
não há de ser em vão....
Ainda há de haver sensibilidade,
motivo pra celebração.
Passes altiva sem te macular,
conserves as vestes divinas sem te sujar,
pássaros tristes irão te saudar,
borboletas deixarão os casulos
e um tanto amassadas
sobrevoarão o lugar.
Amores renascerão
rastreando tuas flores,
rimando com tuas cores,
as mesmas que trazias
e fazias o mundo vibrar...

Vem, Primavera,
faz a tua festa,
sejas nossa alegria
ainda que utopia
pra nos fazer sonhar.


Carmen Lúcia



quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Quase



























Quase fui,
mas a pressa de avançar,
encarar o desconhecido,
cravar os pés desprotegidos
em terras que os poderiam tragar,
fez-me sentir medo...
E recuar.

Quase deixei
envolver-me a emoção
quando batendo no cais
mares e barcos tardios
lançaram suas velas,
redes para me sequestrar.
E eu, resgatando-me,
tive que ficar.

Quase segui
a caravana que passou...
Cigana expatriada,
sem destino, em abandono,
entregue à liberdade
de ser como o vento,
de não calar a verdade,
de ser quem não sou...
Coragem para prosseguir
  foi o que faltou.

Quase desisti...
Faltava aquela palavra
para enfeitar o verso
e ela zombava, fugia,
não queria ser rima,
fazer parte da poesia,
iluminar meu universo.
 Num esforço triunfante,
força que desconhecia,
trouxe para o poema
a palavra que lhe pertencia.


Carmen Lúcia






Primavera e ilusão























Finda-se a espera.
E a primavera ronda o ar.
De enorme beleza
prepara seu trunfo,
espreita seu mundo,
sonda seu lugar,
 espaço onde brotar
cores, flores, amores,
essas rimas singelas
nascidas  à vela
essências do amar.
 Sob crivos de pureza
reverbera
tempos de delicadeza,
luzes para clarear.


De chuvas de lágrimas
orvalha-se,
crisálida ainda presa,
prepara-se,
supera tristezas,
casulos da escuridão,
une-se às rimas,
faz-se versos
de alegria e solidão.

Semiborboleta
de promessas vestida
refaz a emoção...
Retoca a poesia,
seduz o poeta
a mais uma ilusão.
Basta o sol nascer de novo,
romper-se a casca,
deixar o ovo,
cicatrizar a ferida,
e a borboleta atrevida
voa bailando jardins
na primavera dos sonhos
plantados  dentro de mim.



Carmen Lúcia


terça-feira, 18 de julho de 2017

Rédeas soltas


















Solto as rédeas.
Deixo  o pensamento
comandar o momento.
O importante é me entregar,
decolar desse porto sem cais,
abandonar o navio, o vazio,
caóticas e insolúveis situações.
Ir onde ele bem me levar
sem temer o que virá,
o que verei, o que será….
Roletar direções,
represar previsões
que erram a todo instante
incorrendo em tempestades
as imprevisões diárias.
Por ora viajo com meu pensamento
liberando endorfina,
combustível para meu pensar,
oxigênio para meus neurônios
sem saber onde vai dar…
Circundando a rosa dos ventos
tatuada no tempo,
em sonhos e irrealizações.
Disperso poemas,
sentimentos guardados,
chorados, calados,
inerentes aos temas
que já não estão sobre as mesas.
Um pouco acima do chão
deixo um vão...
-entre o abstrato e o concreto-
Talvez uma passagem
para algum amor secreto;
um decreto publicado em poesia
em pleno trajeto.

Voo com meu pensamento
até onde possa voar…
Com ele tenho alento,
paciência pra me adaptar.
E volto “resiliência,”
apta a continuar.

Carmen Lúcia





quarta-feira, 28 de junho de 2017

Liberdade























Mostrei o que sou.
O que realmente modula em mim;
fui contra as marés,
emergi de um abismo sem fim.
Cruzei linhas paralelas,
 corri na contramão do vento, do tempo 
e me alcancei na última estação...
 
Rasguei minha carne, expus meu avesso,
o meu contexto
e toda a sensibilidade verbal,emocional,
escondida em contra senso,
sufocando o bem, endeusando o mal.
 
Postei nua minha identidade
e toda a verdade antissocial ...
chocando a realidade dura.
Vomitei iniquidades cruas
ingeridas por razão irracional
sob forte pressão radical.
 
Viajo sem malas.
Sem revolta ou bilhete de volta.
Sinto-me leve, nada que me pese,
sem alças das parafernálias
que pendurei num tempo que já teve fim.
 
Sigo só... melhor assim.
Insana, estranha, profana
é o que pensam e podem pensar de mim.
 
 
(Carmen Lúcia)

Quinta fase da lua





























O tempo escorre…
E a vida devagar tolhe
devaneios parcos,  poucos,
sonhos enroscados,
perdidos, afoitos,
famintos de querer  ficar.
Ocultos em oposição ao vento
pedem por socorro
e não os carregar,
clamam abraços de um poeta louco
ao não  se dar conta
 que o tempo é pouco
pra investir tanta emoção
e se emaranha nesse espaço roto,
por contradição,
nessa trajetória breve
que descreve
um caminho torto
onde o espinho arde
e a flor já não mais dá.
Mas se o motivo é arte
há que se cumprir a sina
da poesia que invade…
Ainda que o sol se (o)ponha
e na última esquina
de qualquer rua
aponte nua
em inusitada quinta fase,
a lua.

Carmen Lúcia



terça-feira, 13 de junho de 2017

Respostas sem perguntas















Reveste-se de pátina o cenário.
Personagens reais ou imaginários,
envelhecidos,
tribais.
Não pela ação do tempo.
 Por ali ele nem passa.
 Ultrapassa.
Assim como a ação da luz.
Descompassa,
 não seduz.

Quem são?
De onde vêm?  
Paridos de qual solidão?
O que não têm?
O que veda o sofrimento
 frente a tal confinamento?
No gueto,
o unguento a entorpecer feridas,
prisão cercada de fumaça e pó,
desamor a representar sem dó
 atos desencadeando  nãos  à vida.

E a sociedade, cheia de respostas,
de ideias e intervenções,
ações supostas,
olhos turvos de ramela,
olhar que reprime, atrela,
 lança a novas reclusões
sem a profundidade
precisa de um olhar,
onde se é juiz e promotor.
Sem réu.
Onde jaz todo valor
sem julgar a dor.

Arrogância, hipocrisia,
intolerância à revelia,
antropologia imoral,
um faz de conta geral
do rumo certo tomado  
e o certo ou errado
já se tornaram utopia.
Vultos sem rostos,
 vivos-mortos,
filhos da urbanização patológica.
 Não perguntam,  querem não ser.
Inibem a cara pro sol, tentam se esconder.
Lançar mão da droga para não doer
a dor que dói mais que se drogar…

São parte da sociedade,
não excluídos da Constituição,
prescritos na bíblia sagrada,
 sagrados em comunhão
ou o Cristo da revolta,
 “Atire a primeira pedra…”
não mais se revolta?
 Morreu?

A Cracolândia existe.
É o avesso do mundo.
Seu  lado contrário e imundo.
A realidade triste
que persiste em desdizer
o que sabemos
sobre condição humana.


 Carmen Lúcia





domingo, 23 de abril de 2017

A poesia espera


























A poesia espera
a flor nascer  no jardim,
o beija- flor voltear
a rosa vestindo carmim,
num beijo doce selar
o amor que não tem fim.

A poesia espera
o beijo frio da estrela,
o último pôr do sol,
a próxima lua cheia,
o  eclipse total,
a aurora boreal,
e toda a beleza celeste…

A poesia espera
a distância encurtar,
o encontro acontecer,
a aproximação vincular
almas que se buscam,
se amam, se ofuscam,
andarilhas na multidão
sem ter onde ancorar.

A poesia espera
o momento lento,
 o silêncio bento
de palavras caladas
e incalculáveis significados,
instantes eternizados,
sentimentos tantos,santos,
raridades, verdades…

A poesia espera
o rio transbordar, enfim,
e alagar toda tristeza
curando desastrosa crueza
a afluir num mar sem fim…

A poesia espera
o arrojo do arrependimento,
a delicadeza do perdão,
 o ápice do arrebatamento
enquanto o poeta dá vazão
a um turbilhão de sentimentos.


Carmen Lúcia


quinta-feira, 6 de abril de 2017

Contra versões




















Em qual versão me perdi? 
Foram tantas que vivi,
 expostas e inconvincentes.
Talvez em todas ou nenhuma.
Ou quem sabe
na tradução que imaginara
ser tal qual o meu perfil.
Porém ele se modificara
de acordo com os traslados dos dias
a interferirem  na alma
seguindo a revolução decorrente dos fatos
que lacram, decepam, descartam…
buscando entre boatos e mentiras
uma verdade sincera
a qual me propusera
julgando ser o caminho ideal.
Quimeras…
Foram tantas as versões…
Verdades se multiplicaram,
confundiram minhas (re)ações.
Insensatez…
Volto ao ponto inicial
e recomeço outra vez.


Carmen Lúcia