segunda-feira, 19 de março de 2018

A gente espera






















A gente espera...

de novo o dia raiar,
 a noite chegar,
 o galo de novo cantar
mais uma vez…e outra.
Reforma no “quartel de Abrantes”.
 Tudo está como era antes.

A gente espera…

Um dia… Não tem hora.
Não carece ser agora.
(Com cautela, não atrela.)
O cessar da bala perdida
que certeira, levou uma vida.
Mais uma…e tantas…
A dor escrever outra história.
A dela, a sua, a nossa agora.
Guardada só na memória
dos que a tem.
Aí entra o coração…
Reconstruí-lo? Quem?
A gente espera
o rufar dos tambores,
 o fim dos clamores
o tempo de paz…
A justiça di-vagar
 sobre injustiças sociais,
intolerância, preconceito,
a hipocrisia virar preceito,
as emendas (in)constitucionais.
(em sigilo que se faz)

A gente espera

o tempo passar,
 o crime continuar perfeito,
o bandido nunca ser suspeito,
num mundo desigual
onde ser de mentira é normal.


A gente espera, se cansa,
recua, avança…
E cumpre o destino
 de sempre esperar.
(Até o mundo acabar.)




Carmen Lúcia



sábado, 17 de março de 2018

Essências




















Estão sempre ao meu lado
seja de que lado for,
sopram meu pranto calado,
compram minha dor.
Partilham a alegria,
exultam o amor.
Levam meu sorriso brando
 a irromper em gargalhada
brotando um mar de lágrimas,
doces gotas bem dosadas.
Movem-se (e me removem)
pra lá e pra cá,
num jeito leve de se levar.
Amenizam caminhos.
São portos, são ninhos
pra quem chegar, se abrigar.
Quero-os sempre comigo.
São anjos!
São poucos, são tantos!
Tesouros de imensa valia,
simples riqueza singular.
Chamam-nos essências,
ou também  amigos!


Carmen Lúcia

quinta-feira, 15 de março de 2018

Desabafo


















Senhor,
em teus pés derramo as dores
e o livre arbítrio em tuas mãos.
São dores varadas por vãos
de pregos cravados, lacrados,
teares da reles fiação
movidos a rancores
da livre submissão,
liberdade sem permissão.
altares de vis significados, 
 puros cânticos de manipulação,
violação dos santos quereres,
 ultraje aos  justos poderes.

De um lado, a fragilidade, o ensejo.
Do outro, o insano desejo…
O caminho ladeado de flores
Incrustado de espinhos
sangrando amores.

Senhor,
dá-me outra direção
ou a tua perfeição…
Essa minha imperfeição
me coíbe crer
que a vida vale a pena
ou que um dia vou morrer.

Por esse meu desabafo
gerado de meu coração
ajoelho-me humildemente
e te peço perdão.

Carmen Lúcia




quarta-feira, 14 de março de 2018

Ora pro nobis


























Estranha inquietude me domina…
Tem a ver com a lua
que influencia e regula
as minhas fases nuas.

Infinita calma me apraz…
Tem a ver com o mar
em ondas e brancas espumas.
O vaivém da paz.

O rito da oração me fascina…
Tem a ver com a liturgia mormente,
com a fé que ressoa veemente.
Sacramento engolido calado.

Meu credo é desapegado…
Tem a ver com a morte e o fim.
Minh’alma cheia de pecados.
“Ora pro nobis”,  por mim.


Carmen Lúcia




















domingo, 4 de março de 2018

A vida é bela





















Inocente, 

fora cruelmente sentenciada.
Infância truncada, 
brincadeiras roubadas,
portas fechadas.
Pais? 
Não os tivera jamais…
Não no amplo sentido da palavra:
amor, doação, alimento, proteção, lar...

Crescera, aos trancos e barrancos,
um pouco aqui, um pouco acolá,
entre a vontade de ser feliz 
e a monstruosidade do mal,
num contraste entre pedras e flores,
entre o medo que não sabia confessar.

Conhecera um falso lar.
Adolesceram-lhe os sonhos.
Adulteraram-lhe a adolescência.
Envelheceram-lhe a vida.
Estupraram-lhe as flores.

Num encontro com a dor
se viu maior que sua cruz
ao perceber que a sombra
só existe quando brilha alguma luz.

Lutas, lágrimas, cansaço.
Enfim o remanso ao seu encalço.
Um objetivo em mente:
Alertar sobre o mal(u) frequente
do abuso sexual.




Carmen Lúcia

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Subentendido





















Não explico a ausência.
Deixo rastros de resiliência
em sonoro silêncio
a ecoar de mim…
Minha tristeza eu disfarço
e grito em versos ritmados
a cada linha que traço.
Não proclamo o amor.
Está explícito no que faço
e se não faço, não há.
Não aponto caminhos.
A cada um cabe o seu.
Toda escolha, um dia,
leva ao mesmo encontro.
 Não exacerbo o certo
nem restrinjo o errado.
As duas medidas pesam
diferentes balanças
e a cada uma o seu conceito;
vale deixar subentendido
o que ainda pode ser feito.
Não dito regras nem as formulo.
Cada coração rege seu rumo
e à razão é dada o veredicto final.
Consequência é resultado de toda ação.
“Só sei que nada sei” e o não saber
subentende-se “vai lá”…
“Explora o que não há.”
Não apregoo a alegria,
nem descrevo o meu pranto.
Dissimulo a beleza.
 da poesia dos cantos.
Minh’alma procura  mostrar.
Ou
subentende-se em meu olhar.


Carmen Lúcia



quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Teu silêncio


























Olho-te bem devagar…
Há sempre uma verdade
 a ser descoberta
uma porta fechada
uma janela entreaberta
uma luz apagada
um brilho varando pela fresta.
É preciso desvendar detalhes
tocar teus limites
trocar nossos olhares
concedermo-nos nos ver
e até onde me permites
conhecer o que  omites
o que não deixas transparecer.
Tatear o que me escondes
desabotoar tuas pausas
compreender tuas causas
aceitar-te como és.

E no silêncio da resposta
que me percorre e corrói
mergulhar em tua fala
gritante, berrante, calada,
-que dói-



Carmen Lúcia