sábado, 27 de janeiro de 2018

Chove em mim



















Me espera…
Ainda chove dentro de meu corpo.
Escorro caminhos não percorridos,
recantos doridos, choros incontidos.
 Inundo meus recônditos desconhecidos.
Alagada em mim não me encontro.
Perco o rumo, o prumo, meu porto.

Espera…
A chuva levar o que pesa o coração
e nascer primavera em cada estação…
o arco-íris brilhar em qualquer lugar.
Quero estar pronta quando me encontrar.
Perdida em mim não irás me achar.
E te perderei…e me perderás,
antes do sol chegar
e da chuva parar.
Vítimas da ilusão.


Carmen Lúcia



quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Eutanásia


























Hoje minha poesia está só.
Triste, pede para morrer.
Não quer mais se atrever,
não quer mais voar.
Pede-me eutanásia.
Cansou de se expor,
gritar de canto a canto
o desencanto que a fez vibrar,
levar aos quatro cantos a arte de amar,
mostrar-se vulnerável à dor,
e toda a fragilidade
carregada de verdade
manifestada em versos.
Despiu-se e me despiu
desfiando seu rosário,
ao indignar-se com o que viu.
Ninguém viu, ninguém leu, ninguém sentiu.
Hoje, descrente, pede pra morrer.
Covarde ou valente?
Pouco importa a esse mundo indolente.
Não sei bem o que faço.
Compreendo o seu cansaço…
ou
tento compreender…
Mas sem ela
como vou viver?

Carmen Lúcia


domingo, 21 de janeiro de 2018

Tu podes



















Poetiza-me.
Deixa-me respirar teus versos.
Livra-me dos poderes adversos.
Percorre meu interior.
Descreve-me em toda versão.
Divulga-me assim.
Mora na calma da paz de um coração
a pulsar , das manhãs, a canção.
Vive teus momentos em mim.
Inspira-te em sentimentos que falam
do amor que evolui e constroi.
Me reconstroi.
Sou fruto de sensibilidades,
poço de fragilidades.
que se apropriam de essências
geradas no cerne da alma.
Leva-me em tua poesia
onde a magia faz crer
que o  inadmissível estarrece
e o impossível acontece.
Carrega-me, entorpecida bailarina
a deslizar no inusitado de tuas rimas.
Cerra a linha do tempo
e que nos leve os vendavais
a ancorar nos sonhos atemporais.

Tu, só tu podes,
Poeta.


Carmen Lúcia

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Ponto G da vida


























Chego ao ponto G da vida,
Àquele que me dá guarida
 e faz crer que a vida é pra se viver,
que a gente é gente, com g e prazer,
com g de gratidão
ao pensamento preciso
a ponderar o coração
em contrapeso à razão.

Dispenso o certo, o incerto,
descarto o politicamente correto.
Renovo meu decreto.
Desnudo-me.
Sigo o que sigo e consigo
verbalizar ao meu eu
que agora eu sou eu.

Rezo a própria cartilha,
percorro nova trilha,
preencho lacunas vazias
de tudo que não ocorreu,
do nada que incorreu
no vão sentido da vida.

Livre de lições infundadas,
águas paradas, dores salgadas,
filtro o que agora entra em mim,
ganho o  ponto g da graça
e posso dizer enfim:
Sou feliz!

Carmen Lúcia









sábado, 6 de janeiro de 2018

Mundo bonito




















Quero a vida em mutação
o tempo inteiro,
viver cada estação
do amor primeiro.

Quero cheiros e afins
pelos canteiros,
quero a paz dentro de mim,
bem verdadeiro.

Quero o barco ir e vir
sem despedida,
ver o mundo a sorrir,
bendizer a vida.

Quero erradicar o mal,
extirpar ferida,
ir além do meu quintal
sem projeto de partida.

Quero do versejador
versos e rimas,
da Rosa, apagar a dor,
de Hiroshima.


Carmen Lúcia

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Quase




















Quase me deixei levar
sem ponderar o certo ou errado,
mas o destino tinha o não tramado
e entre o certo ou errado
o nada aconteceu.

Quase gritei meu sentimento
no ápice das emoções incontroláveis,
mas fiz falar o meu silêncio.
 Retrocedi ao arrebatamento.

Quase consumei cada momento
a crescer na volúpia do voraz desejo,
no ensejo de mostrar o meu avesso,
mas tropecei na incontida urgência
de me despir em fatos e argumentos.

Quase me opus ao tempo
pedindo-lhe um contratempo,
um flashback, um alento…
voltar à flor do passado
colocada sobre teu teclado
num gesto de ternura, impensado.
E olhaste o meu olhar desviado,
calado, querendo falar alto.

E me perdi no quase,
sem jamais me ter achado.


Carmen Lúcia


sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Retrato da vida


















Num canto da sala balança a cadeira.Por cima dos óculos observa.Não dá palpites.
A rotina diária,algazarra, correria. Todos apressados, em tropeços, passam por ela.
Sequer percebem que ela percebia.Olha a todos e a tudo.Sem que ninguém a veja.
Os dedos já cansados esboçam um bordado.Parecem mecanizados, de tão acostumados a esses traçados.Chegam à perfeição.
Seu rosto, sem expressão, semblante enrugado, são marcas que ficaram, presentes do tempo.
Um tempo ausente que corre lá fora.Agora mais veloz, levando embora a vida, que ela vê caminhar, além da janela, afastando-se cada vez mais.
Veem-lhe as lembranças.Ricas lembranças.Criança correndo pelo campo, sem tempo, sem marcas, só esperança.Só risos.Sonhos.Fantasias.
Então cerra os olhos.Começa a imaginar.Ouve uma música suave.Esboça um doce sorriso e se pega a rodar, a girar por entre flores, pés descalços na grama úmida...com o vento acariciando seu rostinho de criança feliz.De repente a criança põe-se a correr para um lugar belíssimo, indescritível, inimaginável...
A cadeira já não balança.Permanece imóvel no canto da sala.
Caído ao chão, um bordado perfeito e já terminado.
Repousa de lado aquele rosto sem expressão, marcado agora pela morte.
A lida prossegue lá fora. E lá dentro, a rotina de sempre.É a vida!
Ninguém percebe a partida.

_Carmen Lúcia_

Retrato Pequena narrativa postada lá atrás, no tempo da saudosíssima comunidade do Orkut “Navegantes das Estrelas”.Criada para uma competição. Se ganhei? Não importa. O importante é que participei.