quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Tu
























Semeia-me de esperanças.
Faz-me brotar nos jardins dos corações
juntando-me a essências ignoradas,
não sentidas nem cultivadas.
Nutre-me de emoções…
As que me trouxeram até aqui
e hão de juntar-se a outras
para também me conduzir,
 veleiro a velejar onde quero,
buscando o ideal que ainda espero,
sempre a me esperar também.

Conduz-me com teu amor…
Sei que a dor é passageira de teu barco,
 faz-se doer, sofrer, desvanecer,
lapidando o ser,  expondo  o existir,
 evolução  sem embalagem
do viver incauto de apenas ser
trazendo o brilho antes escondido,
revelando o ourives da alma a renascer.

Permite-me continuar meu rumo…
Se por algum motivo  desaprumo,
sejas a paciência divina
a perdoar os limites de minhas finitudes
tentando simplificar  as longitudes.
Levanta-me quando eu cair.
Certamente serão muitas quedas.
Quero tua mão a me amparar,
teu colo sarando meus ais.
Tu, meu amigo, meu filho, meu pai…

Sejas minha velha embarcação
pelo mar das palavras “velhejando”
 colhendo o belo em versos e magias
empolgada da tua empolgação,
despida de pena que não valha.
Transita-me por caminhos abaulados
apontando os dois lados da medalha.


Carmen Lúcia






sábado, 19 de novembro de 2016

O poeta voltará




















O poeta foi ali…
Lá, acolá, não sei onde…
Sei que voltará.
Foi buscar fragilidade
em solos lavrados de fraternidade.
Foi ainda mais além…
Acender o farol do mundo,
iluminar o breu profundo
que aqui se estabeleceu.
Buscar a estrela de Belém,
sinos repicando o bem,
 neve pra branquear o chão,
tornar o natal tão lindo
ainda que mera ilusão…
Foi regar a primavera,
colher a flor mais bela
a exalar  emoção.
Em tardes outonais,
roubar o dourado das folhas,
 a nostalgia encantada do tempo
para o desengano do agora
 que não se encanta mais.
Foi pedir paz onde há guerra
tão fria que a alma aterra
e congela sentimentos.
Foi estancar o inverno,
fechar o portal do inferno
de onde os demônios
disseminam o mal…

O poeta foi ali…
Lá, acolá, não sei onde…
Só sei que voltará.

(Carmen Lúcia)


sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Unicidade




















 
 
 
 
Creio em Deus trino
que me fez una...
Insubstituível.
Só um caminho me é admissível
além dos desvios que lançam aos desafios...
Sou como o rio
que serpenteia, contorna rochas,
permeia pedras e as pisoteia.
Não se desnorteia
para chegar ao seu destino.
 
Entre o sagrado e o profano
sou o meio termo...
Nem pura, nem mundana.
Sou humana.
Não vacilo...
No entrelaço das incertezas
fico com a óbvia certeza
de que o bem prevalece o mal.
Procuro a isenção das ambiguidades
que confundem e roubam a tranqüilidade.
Caminhos confusos,
trilhados pela dualidade....
 
E nessa unicidade em que vagueio
passeio em cores e versos,
meu eu manifesto
ao colher de cada dia
a poesia
que me lapida em gestos de amor
em busca da beleza interior.
 
 
Carmen Lúcia
 


















Medo...
De despir-me das vontades
e nua de desejos 
 e ensejos
perder minha identidade.
De desistir dos sonhos
e imbuir-me de marasmos,
cultivando um amanhã enfadonho.
De mergulhar no vazio;
dele não conseguir sair
e por mais que eu tente, nele persistir.
De perder a inspiração,
vítima da síndrome do papel em branco
...e fragmentá-lo com meu pranto.
De que a sombra se interponha
e me impeça de ver a luz,
o belo, o arrebol, o sol...
De que pensamentos funestos
conspirem contra mim, no universo,
e me retornem ainda mais perversos.
De não encarar a verdade,
alienar-me à falsidade
e por mais que me custe,
mascarar a realidade.
De não ter ousado,
não ter lutado,
não ter recomeçado,
não ter acertado,
mesmo tendo amado.
Medo de não perder o medo.
Carmen Lúcia

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Desconsolo






           













Hoje, após anos de poesias
ainda me encontro caçando sonhos
um tanto meio que aturdida…
Os planos já não somam tanto,
perderam o brilho da magia,
 não acompanham o ritmo da vida.
Porém me pego ainda iludida
equilibrando realidade e fantasia,
vivendo entorpecidas utopias,
gastas, choradas, feridas.

Vejo o sol nascer, o céu se iluminar,
as cores pincelarem um rico cenário
a ornamentar um mundo de cruezas,
a lua a se achegar mostrando seu mistério,
mistificando a lei do universo,
trazendo o belo e toda sua grandeza
onde a beleza não se encaixa,
onde o homem é impermeabilizado
para que seus respingos não o fragilizem
e o que é humano se faça despertar.

Vem, inspiração, ajuda-me a sonhar
mesmo que não haja mais motivo…
Faz-me digna de seu dom,
aumenta o tom de minha poesia,
preciso tanto ouvir seus versos,
conhecer as rimas e sentimentos
inversos e desconhecidos
que perdidos hoje me alagam
e não falam mais a minha língua.


Carmen Lúcia