sexta-feira, 25 de abril de 2014

Chuvas, lágrimas e suores



Chovi...
lágrimas represadas,
desilusões estagnadas,
suores suados em vão,
histórias marejadas.
Molhei o meu chão...

Soprei mágoas destoadas,
lambi o sal de meu pranto,
sequei desilusões desenfreadas,
lavei suores que ardiam tanto...
Enxuguei histórias que faziam mal.
Preparei a noite...
Dissolvi o mau.

Amanheci...
Céu azul depois do vendaval,
sol brilhante reacendendo a vida,
paz em tonalidades coloridas...
Nuvem branca deslizante,
dia calmo, maré mansa,
corpo leve, alma branda.

_Carmen Lúcia_


Procura-se



Procura-se

Encontra-se perdida na imensidão,
na vastidão celeste, espaço sideral,
orbitando entre astros, vácuos, galáxias,
a minha poesia.

Voou tão alto que transcendeu
fronteiras, barreiras, limites, anos -luz ...
Ascendendo cada vez mais alto
a emergir no espaço, nave que a conduz...
sem conseguir parar, poema a girar.

Soltei as rédeas... e ela se foi.
Qual disco voador, mais longe do que eu.
Deixei-a fluir, inflando-a de anseios,
febris e loucos devaneios.
Acreditei poder um dia a igualar a Deus!

Agora apenas um sol já não lhe basta,
muitas luas não abrandam os sonhos seus,
nem mesmo as estrelas podem convencê-la
a pôr os pés no chão, voltar aos braços meus.
Fez-se parte do universo, reluzindo versos
que se misturam com poeira cósmica a dourar o céu.

Divaga por constelações, cintilações...
Na Via Láctea faz tour. Esnoba seu glamour.
Possui luz própria, transgride a lei da gravidade .
Pretensiosa, quer ser o alvo da atração.
 Tornou-se criatura. Despreza o criador.
 Vagueia pelo mundo de ostentação.
      
 
E eu aqui a esperar em vão,
alma vazia, isenta de ilusão...
Peito sangrando, morreu a inspiração.
Pena máxima de um poeta. Condenação!
Contaminada pela vaidade e ambição,
por minha culpa, a poesia se perdeu...

      _Carmen Lúcia_



quarta-feira, 23 de abril de 2014

Névoa



   
Persigo a luz por trás da névoa...
Preciso encontrar o caminho.
Meus pés cansados são descaminhos,
já não me levam a lugar algum.

O silêncio aumenta o vazio,
faz de minh’alma seu cais...
Meu corpo já não é meu, só o frio
me agasalha ou me desfaz.

Onde estará minha vida?
Em qual rua a deixei?
Só restam pedaços de mim
em cada esquina que passei.

Só vejo bruma esfumaçada,
a luz se esconde atrás dessa cortina
encobrindo a rua, a lua, na madrugada.
Espero ter o que ainda espero,
o que ainda creio, o que ainda quero.

Só assim partirei...
Assim como cheguei.


_Carmen Lúcia_

terça-feira, 22 de abril de 2014

Suave Canção




Seguiremos a doce melodia...
Partirei de um ponto qualquer
e irei lhe encontrar onde você estiver.

E então, pressentindo meus passos,
virá ao meu encalço em plena sintonia
com meu coração, com a suave canção.
Seguindo os acordes da sinfonia
que se tornam mais fortes
à medida que de mim se aproxima.

E a cada passo que damos
gravada deixamos a chama do amor.
No chão que pisamos,
ar que respiramos,
perfume da flor.

Nos dias que antecedem
o nosso encontro, em qualquer ponto,
marcado pelo destino que aponta o caminho
para nos encontrar.

Seguiremos a canção suave
entoada ao vento,
regida pelos astros.

Serão muitos sóis e luas
a rastrear nossos rastros,
a testemunhar nossos passos
nesse afã de chegar...

Mas toda estrada se encurta
se partimos em busca
do sublime desejo de amar.


(Carmen Lúcia)

segunda-feira, 21 de abril de 2014

O timoneiro




Lá vai o timoneiro
em seu barco parco
cruzando seu roteiro
num mar alto e pardo.

No comando da vela
ao vento atento, apela,
 não perder a direção,
 o brilho da constelação.

Que a manhã nasça de luz
e o sol reflita nas águas
o azul que no céu reluz
sombreando dores e mágoas.

E o bardo timoneiro
navega o tempo inteiro
em busca de versos
a preencher seus reversos.

Palavras ondulam nas ondas,
gaivotas riscam os céus,
cessam-se infindáveis rondas,
movem-se as águas em escarcéus.

Juntar palavras, dar-lhes asas,
transformar larvas em borboletas,
brincar de ciranda com as letras
e girar, girar... atravessando o mar.

Volta ao cais, o timoneiro,
pescador de dias mais risonhos,
os espaços vazios, já cheios.
Joga a rede repleta de sonhos
num porto onde jaz o abandono.

_Carmen Lúcia_




terça-feira, 15 de abril de 2014

Vento




Vento que permeia cantos e encantos,
desveste as paisagens, devasta as roupagens,
prepara o cenário pra outra estação,
alia-se ao outono durante sua missão.

Vento que ciranda ao lado do tempo
varrendo impurezas caídas pelo chão,
soprando fuligens, levando contratempos,
soprando-me aos ouvidos o que veio revelar.
Leva-me, em suas voltas, para o lado de lá.

Vento que percorre e alcança os sonhos,
faça-se ponte pra que eu possa passar,
não quero que morram em pleno abandono,
são sonhos que ainda hei de realizar.

Oh, vento, que assovia melódica canção,
bate em minha face, aquieta meu coração,
seca o meu pranto, sopra minha dor,
e parte espalhando sementes de amor.


_Carmen Lúcia_

 

domingo, 13 de abril de 2014

Mania de poetar



Se poesia, um dia, virasse mania,
e contagiasse o universo de versos, euforia,
feito  aves, poetas migrariam
encobrindo os céus de perfeita harmonia.

Cantada em versos, o que foi dor seria
tragado pelo amor, lançado para amar,
banido entre os homens, envolto de poesias,
sucumbiria o ódio por lhe faltar o ar.

E todos os poetas, em grandes romarias,
desarmariam o mundo, seriam gigantescos,
fragilizariam seres empedernidos,
libertariam almas desse inferno dantesco!

Oh, sonhos, quimeras, quiçás,
pensamentos perdidos aqui e acolá.
Alastram-se nocivas manias, megalomanias,
só não se contagia a mania de poetar.



(Carmen Lúcia)

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Enfim...



    Enfim...


Enfim, encontro-me nesta paragem.
Nem sei se por mim ou pelo quase fim.
Talvez pelos dois. A vida é assim.
 Ansiedade louca de se chegar ao depois.
 E depois?
 Das prerrogativas e abordagens,
 dos estragos e vantagens
expostos à mesa, num leque aberto,
repleto de probabilidades e incertezas
onde o livre-arbítrio é um passo incerto?

Penso que parto, mas estou vindo.
Penso que venho, mas estou indo.
Chegando, partindo, chorando, sorrindo.

A adrenalina é pouca,
a resistência é rota,
 a estrada, precária,
consumida nas extremidades
após  penúltima cartada.
 A passagem estreita
reduz a velocidade.

A marcha lenta adentra
sem a fobia de querer chegar.
Alenta-se nos detalhes
antes alheios ao meu olhar.
O tempo passa, mas agora há tempo
de ver o mar, o luar, as estrelas,
as cores, as flores, as riquezas
sentindo a docilidade de cada lugar.

Belezas jamais vistas outrora
imbuídas na corrida insana
de se alcançar o agora.

(Carmen Lúcia)